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domingo, 25 de julho de 2010

O sonho da liberdade através da arte

Pedaços de papel, palitos e cola se tornam arte nas mãos de quem deseja reconstruir sua vida. Das mãos surge uma nova esperança para os presos que cumprem suas penas na cadeia pública em Cambuí. Eles transformam o tempo livre em obras de arte. Essa iniciativa fez das celas lugares de produção artesanal. Esse projeto devolveu a eles a liberdade necessária para sonhar com novos dias. O trabalho iniciado em 2006 envolve atualmente 80% dos detentos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Seduzidos pelo vício
Reportagem produzida pelos alunos do Curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Sapucaí. O video mostra uma alternativa de tratamento oferecida pela Casa Dia na recuperação de dependentes químicos na cidade de Pouso Alegre. O objetivo foi retratar com fidelidade o drama na vida dos dependentes, mas por outro lado, mostrar que é possível se recuperar dessa doença que atinge milhões de pessoas em todo o mundo.

Equipe: Reportagem: Wilker Bouviere Imagens, fotografia e edição: Jailson Silva Produção: Elen Souza e Juliana Cunha Orientação: Jandira Rezende

Universidade do Vale do Sapucaí - Pouso Alegre - MG

http://www.concursocnn.com.br/2010/seus-videos.php?id=1023

video

Rompendo limites na busca de um sonho
Nas brincadeiras de infância, Danilo ficava horas em um tapete estendido ao chão. A sua companhia eram bonecos de super heróis. Ele criava um mundo de fantasias, enquanto seus colegas se divertiam brincando de futebol e outras brincadeiras. Em meio a pensamentos, ele transformava os seus momentos de solidão em histórias. Os seus heróis se tornavam apresentadores, participavam de programas, e até mesmo ele entrava no mundo da criação. Muitas manhãs foram assim, o sol brilhava forte num horizonte que parecia não ter fim.

Hoje com 21 anos, ele lembra desses momentos com muita emoção. Dos brinquedos apenas restam à memória. Danilo Casalechi de Castro Souza, o menino de olhos azuis e de cabelos amarelos e com um largo sorriso no rosto mostra que venceu muitos obstáculos e vem conquistando seu espaço. Filho do casal Ivan e Denise, hoje separados, ele também tem uma irmã, a Bruna de 17 anos. Ele nasceu de apenas 6 meses, mas a sua maior luta sempre foi contra o preconceito de ser um “cadeirante”.

Empurrando sua cadeira, saímos à procura de um lugar calmo para conversar. Depois de algumas voltas encontramos um banco vazio, resolvemos parar naquele lugar. Coloquei ele de frente comigo e começamos a nossa conversa. Comecei a observar na medida em que ele falava uma voz que me chamava muita atenção, os seus braços se movimentavam de uma lado para o outro e as mãos ajudavam ele a dizer aquilo que guardava há muito tempo. Na medida que o tempo foi passando, sentia que ele foi ficando mais tranqüilo e as palavras que ele pronunciava iam desenhando a sua vida.

Danilo diz que a “condição de cadeirante” nunca foi um problema que influenciou na sua vida de jovem e nos seus trabalhos. Sobre duas rodas ele teve uma nova percepção da vida, aprendeu que seus maiores limites são a falta de coragem e de lutar contra os desafios da vida. Para ele a “cadeira” nunca impediu de sonhar e buscar seus ideais. Ele nasceu com paralisia cerebral, o que não possibilitou andar, mas permitiu ir além, olhar com os olhos do coração. Com muita convicção ele diz que a cadeira de rodas sempre foi um “acessório”, que dá a segurança que ele precisa, tornando os dois uma só pessoa.

Solidão e descobertas
A sua infância, ele revela que foi muito tranqüila, vivia nos braços da avó, sua grande companheira, que fazia questão de levá-lo para todos os lugares. Em uma dessas andanças com a avó, um fato curioso aconteceu. Um dia nos braços da avó, eles foram à padaria e quando chegaram lá o balconista disse que ele era muito grande para estar ali, e ela num tom muito calmo disse que ele não podia andar. O balconista muito envergonhado pediu desculpas. Muitas lágrimas escorrem pelo rosto dele ao lembrar desse fato. Ele diz que sempre foi otimista em relação a sua vida, tem fé e esperança, mas nunca pensou que fosse andar, jogar futebol, ou correr como os outros meninos, “sempre estive na realidade”.

Na solidão que muitas vezes sentia, ele procurava se alegrar com programas infantis que passavam na TV pela manhã, um desses, o “programa da Xuxa”, marcou a sua vida, era sua companhia de todas as manhãs. O seus olhos brilham toda fez que fala da sua paixão pela Xuxa, uma fonte de inspiração que até hoje tem. “Tento sempre buscar a inocência e as crianças me inspiram pureza”, diz ele. No seu quarto ele guarda com muito carinho muitos pôsteres e materiais dessa época.

Como todo jovem, Danilo em sua adolescência viveu uma fase de rebeldia, vários momentos pensou em desistir, sentia excluído das pessoas e imaginava que não iria suportar tantos preconceitos. Ele criava situações que o deixava muito revoltado, uma delas era, “quem poderia namorar com um cadeirante”. Nesse momento vem a tona muitos sentimentos, ele fica um pouco tenso, mas vai se aliviando na medida em que as palavras vão sendo pronunciados, dando lugar a uma tranqüilidade.

Determinação de um jovem
Entre uma conversa e outra, ele sempre faz questão de lembrar o seu amor pelas crianças. O seu primeiro trabalho com o público infantil teve inicio em 2007. Na época ele foi convidado para escrever para uma coluna infantil de um site de Pouso Alegre. Nesse período já foram publicadas muitas matérias. Hoje ele é reconhecido por muitos pais e filhos que acompanham o seu trabalho. A coluna “DANILO 10”, recebe inúmeras visitas todas as semanas e já é um sucesso na região.

Atualmente ele cursa Jornalismo na Universidade do Vale do Sapucaí. Essa é mais uma conquista de Danilo, que nunca desistiu dos seus ideais e sonhos. Muitas pessoas não acreditaram na sua determinação e hoje ele prova a todos o quanto é capaz. “Eu prefiro ficar sem minha cadeira, do que deixar de fazer comunicação”, conclui ele.
Tradição católica Jailson Silva

Com um giz nas mãos, vários desenhos foram riscados no chão, cada um deles inspirados na fé. Era possível ver figuras de Jesus, Virgem Maria, cálices, velas, cachos de uva, e vários outros símbolos eucarísticos, que foram um a um preenchidos com pó de serra de várias cores, dando um colorido todo especial ao longo das ruas, em Cambuí. Também foram utilizados outros materiais como farinha de trigo, sal, tampinhas de garrafa revestidas e flores.

A construção do tradicional tapete de Corpus Christi mobilizou centenas de fiéis da Paróquia Nossa Senhora do Carmo. O trabalho começou bem cedo para essas pessoas, que vieram para ajudar a enfeitar as ruas centrais da cidade para a tradicional procissão. Ao longo das ruas, era possível ver gente de todas as idades que vieram animadas para o trabalho. Todas as pastorais e movimentos da igreja estavam envolvidas, cada uma delas responsável por um espaço. Com a união dessas pessoas foi possível construir o tapete em homenagem a Jesus Cristo.

Algumas pessoas se tornam verdadeiros artistas durante a execução do trabalho. Uma manifestação da arte popular inspirada pela fé. Cada voluntário tem a oportunidade de colocar seu dom a serviço da comunidade. Para a professora Nilta Aparecida da Fonseca, 39, é muito bom ver todos trabalhando juntos. “É um momento de união das pastorais e movimentos da igreja, que em meio ao frio e cansaço dedicam seu tempo para ajudar”. Ela comenta que “todos fazem com capricho e amor esse trabalho”. Paulo Sérgio, 27, estudante também fez a sua parte. Ele comenta que o “pessoal realmente deita no chão para fazer os desenhos”, mas que todo esse sacrifício vale apena.

O resultado foi um tapete de 1 km de comprimento e 1,5 metro de largura, motivo de satisfação para todos os voluntários envolvidos nos enfeites. Alguns moradores também contribuíram. Foram colocados panos de várias cores nas janelas de algumas casas para receber a procissão com “Cristo Eucarístico”.

Lembranças de família

Nascida em família católica, Nilta relembra da tradição na celebração de Corpus Christi na cidade. Nos tempos de criança também ajudava nos enfeites das ruas para essa celebração. Mas todo o processo era feito de maneira diferente. Os enfeites eram confeccionados por várias famílias dias antes. Ao longo das ruas, ao invés do tapete, eram feitos varais de bambu, que serviam como suportes para os cachos enroladinhos preparados com papel crepom. Todas as crianças envolviam nesse trabalho artesanal que era feito com muito carinho.

Em sua memória ela guarda esses momentos de grande fé, que mesmo com o tempo não se apagaram. Hoje tem a oportunidade de ajudar nesse trabalho, e diz que é uma emoção muito grande. “É um trabalho feito com as mãos, é um momento para a gente agradecer a Deus em poder fazer”.

O mistério da fé

O momento mais importante foi à celebração eucarística, que aconteceu na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, no período da tarde no último dia 3. A celebração presidida pelo pároco Padre Omar Aparecido de Siqueira e concelebrada por Padre Elton Cândido Ribeiro reuniu uma multidão de fiéis vindos de vários bairros da cidade que participaram desse momento de muita fé para a comunidade católica.

Na tradição católica essa solenidade foi criada na Idade Média para celebrar solenemente o mistério da Eucaristia - o sacramento do “Corpo e do Sangue de Cristo”. É celebrada todos os anos após o domingo da Santíssima Trindade. Na reflexão durante a celebração, Padre Omar, diz que “sem a eucaristia não podemos viver a vida de Deus”. Também comenta sobre a importância da partilha entre os cristãos e o amor como modelo de comunidade. “Percebemos que cada dia de nossa vida é seu e que sua vida é nossa vida”.

Segundo Padre Elton, vigário paroquial, essa celebração é uma oportunidade de recordar o sentido profundo da eucaristia na vida da igreja. Ele ressalta que o cristão é “chamado a ser no mundo eucaristia, partilhando aquilo que tem e aquilo que é na construção de um mundo mais fraterno e mais irmão”.

O momento mais marcante foi a procissão que seguiu pelas ruas centrais da cidade após a celebração. O trajeto teve início na praça da matriz, desceu pela rua Ângelo Bernardo Faccio, seguiu pela Rua Coronel Lambert, depois subiu a Rua Capitão Soares e retornou pela Rua João Moreira Salles. Em todo o trajeto, num clima de muita oração os fiéis rezavam e cantavam seguindo a procissão.

Sobre o tapete colorido, “Cristo Eucarístico” foi levado em um ostensório entre uma multidão de fiéis. Benedito Ferreira, 70, aposentado, muito emocionado durante a procissão diz que essa é uma oportunidade que os cristãos têm para estarem mais próximos de Cristo. “Não tenho palavras para expressar o que sinto”. Segundo Terezinha Salles Sampaio, 70, esse momento mostra a fé dos cristãos. “Jesus é vida na vida da gente”. Muito emocionada ela diz que participa há 40 anos dessa celebração e cada ano é um sentimento diferente. “Se não fosse a eucaristia, vã seria a nossa fé”.
Invasão de capivaras ameaça saúde públicaCapivara hospeda o carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa

Jailson Silva

A presença de algumas capivaras às margens do Ribeirão das Antas, rio que atravessa a cidade de Cambuí, é motivo de preocupação para a vigilância sanitária, e uma atração para os moradores do local. O número desses animais tem aumentado, cerca de 40 capivaras vivem ao longo do rio, e estão invadindo algumas residências em busca de alimentos.

De acordo com Renato Aguiar coordenador da vigilância sanitária, esses animais sempre foram vistos na zona rural da cidade, devido ao desequilíbrio ambiental e falta de alimentos para sua sobrevivência, elas migraram às margens do rio, onde encontraram um ambiente favorável para sua reprodução e alimentação. Elas já se adaptaram com a presença das pessoas, já estão mansas.

Já foram registrados dois casos de invasão das capivaras em residências na cidade, de acordo com Aguiar, no início do ano, a capivara invadiu uma casa e teve que ser capturada. Os moradores ficaram assustados com a presença do animal, que apareceu no corredor de um prédio residencial, localizado na praça da cultura. Depois de capturado, o animal foi solto no seu ambiente natural, próximo da cidade.

Aguiar alerta que a população deve ficar atenta com a presença desses animais, já que eles são hospedeiros do carrapato-estrela, que transmite a febre maculosa. Essas capivaras estão se alimentando do capim plantado às margens do rio, que diariamente recebe o esgoto de toda a cidade. “Foram dois problemas que ocorreram, a superpopulação das capivaras, que entraram na cidade, e em relação ao carrapato, que é o risco sanitário”, explica Aguiar.

Para Fernando Bonillo, responsável do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) no Sul de Minas, “as capivaras não invadiram o meio urbano, o meio urbano criou uma estrutura especial ao redor do ecossistema que elas ocupavam no passado.” Ele comenta também que as pessoas devem ter consciência e conviver com precaução em relação a esses animais.

Nos próximos dias, haverá uma reunião entre a Secretária Estadual de Saúde, IBAMA e vigilância sanitária para que sejam definidas as estratégias para resolver esse problema, segundo Aguiar ainda não foi registrado nenhum caso de febre maculosa no município, mas que a população deve tomar os devidos cuidados, que evitem contato com esses animais, pois eles podem estar contaminados.

Segundo alguns moradores do local, a presença das capivaras não traz nenhum problema, ao contrário, é uma oportunidade para muitos verem de perto esses animais, já que eles são silvestres “é muito bom ter a natureza perto da gente, eu nunca tinha visto”, comenta Maria Aparecida Ferreira, 60 anos, moradora há 43 anos às margens do rio. Ela também relata que “vai chegar um tempo que ninguém vai ver esses bichos na natureza.”

“As capivaras não estão oferecendo nenhum risco, esses animais costumam a aparecer ao anoitecer, ficam na grama, com seus filhotes, e atraem à atenção de muitos que passam por ali. “explica José Luiz do Carmo, 45, segurança, morador próximo. As capivaras também tem sido alvo de caçadores, há relatos de moradores que alguns desses animais são caçados para o consumo de sua carne e já foram vistos com sinais de flechadas. Segundo a Lei 5.197/7 o abate de capivaras é crime, e prevê multa e pena de detenção de seis meses a um ano para quem caçar animais silvestres, como a capivara.
Produção artesanal reduz pena de detentos
O detento Marcelo Soares aprendeu o ofício na prisão

Jailson Silva

Dos 74 presos da cadeia de Cambuí, 80% se dedicam ao trabalho artesanal. Desde 2006, eles passaram a confeccionar as peças com o intuito de conquistar o beneficio previsto no artigo 126 da Lei de Execuções Penais (LEP) que permite a redução da pena, a cada três dias trabalhados, o detento tem um dia descontado no tempo de prisão. As peças são comercializadas pelos familiares, que vendem os produtos aos amigos, parentes e até para pessoas que fazem encomendas.

O material utilizado é comprado pelos familiares, que é entregue aos detentos nos dias de visita. Eles também são os responsáveis pela comercialização das peças na cidade. Maria Leonilda Costa, dona de casa, mãe de um detento, ressalta que o trabalho é muito importante para todos os detentos, e que se filho consegue ganhar uma boa quantia financeira com as peças que ele produz. Ela afirma que quanto mais eles se empenham em fazer trabalhos bem feitos, maior é o retorno financeiro, e algumas peças são vendidas por até R$ 150,00 reais.

O detento Marcelo Soares explica que as peças são compradas por pessoas desconhecidas, e que um dia poderá passar na rua e poderá vê-las numa loja, numa vitrine. Ele afirma que isto é motivo de orgulho. “Nós temos que pagar por aquilo que nós fizemos, a gente acaba pagando e utilizando nossa mente, e isso, gera beneficio para gente e fica bem melhor a convivência em si.”
Segundo o delegado Victor Minhoto Meinão, os presos que trabalham nesse projeto, tem apresentado uma melhora significativa no seu comportamento dentro das celas e na convivência com os outros detentos. Ele afirma também que “a partir do momento que o preso sai da cadeia e já tem uma profissão, é muito mais fácil ele ser reinserido na sociedade do que quando sai e não tem nenhuma profissão, não tem nenhum oficio e não sabem nem o que fazer.”

Para Soares, que cumpre sua pena há um ano, não foi difícil aprender a fazer as primeiras peças, foi necessário observar os companheiros que já faziam esses trabalhos e prestar muita atenção. Segundo ele “antes eu não tinha tempo para trabalhar com artesanato, mas o que eu aprendi aqui é trabalhar a paciência, porque o artesanato não é difícil, e você tendo paciência, você consegue desenvolver qualquer tipo de peça.”

Maria Leonilda, que tem seu filho preso há um ano, afirma que o projeto traz muitos benefícios para os presos e familiares, e proporciona a eles uma recuperação e um aprendizado de uma nova profissão que poderá ser colocada em prática quando eles cumprirem suas penas. Todas as peças que seu produz, ela comercializa, e que esse dinheiro é usado na compra de materiais para que possam ser produzidas novas peças e na compra de utensílios básicos para o filho.

Ela comenta também que “a reação das pessoas é muito boa, porque esse é um trabalho como qualquer outro, e a diferença é que são feitos por pessoas que um dia erraram e estão pagando por aquilo que fizeram.”

De acordo com Meinão, o projeto traz muitos benefícios para os presos e para o sistema prisional. Mas infelizmente, a quantidade de presos existentes na cadeia vem aumentando, mas isso é um reflexo da sociedade brasileira, pois o número de presos tem aumentado em todo pais, não só em Cambuí.